5.12.08

Um outro olhar...(11)










“no topo do mundo...”

é tão bom subir às montanhas mais altas
sentir que estamos no topo do mundo
ver como somos tão insignificantes
e como tudo é tão efémero nesta vida

no topo do mundo
vemos tudo
vemos homens grandes que se julgam pequeninos
e tantos, tantos homens pequeninos que se julgam grandes

daqui, vemos as casas, os carros e as pessoas
os sorrisos e as tristezas
tanta riqueza no meio de tanta pobreza
daqui vemos tudo

ou, se calhar, não vemos nada
apenas sonhamos que vemos
e, às vezes,
é melhor sonhar do que viver

viver dói... porque é real
sonhar... é ir ao topo do mundo
aquele sítio onde tudo acontece
aquele sítio onde nada acontece

4.12.08

um outro olhar...(10)













“a luta pela sobrevivência…”

a luta pela sobrevivência obriga-nos a estas coisas
temos de comer mesmo o que não gostamos
pior... por vezes, temos de comer mesmo o que gostamos muito
é que eu até gosto de cobras e tenho mesmo por elas um carinho especial
mas, o que hei-de fazer? ou como, ou morro?
e, ou morro eu ou a cobra de quem tanto gosto
que peso terrível na minha consciência

que hei-de fazer?

tudo à minha volta é luta pela sobrevivência
seres pensantes e não pensantes; inteligentes ou estúpidos
ricos ou pobres; civilizados ou selvagens
não andamos todos, desde sempre, a comermo-nos uns aos outros?

sendo assim, adeus cobra, até breve
até aquele dia em que alguém me vai comer a mim

um outro olhar...(9)













“a vida... depois da morte anunciada...”


eu fui uma bonita árvore
cumpri a minha missão e depois sequei
o meu destino era o lixo... o mar... ou a fogueira

mas, quis o destino que me dessem outro destino
tenho outras funções mas continuo, sempre, útil
eu, que pensava que tinha morrido, que até já tinha desistido de viver

mas, quis o destino
ou será que, afinal, fui eu que não tinha desistido?
ao frio, à chuva e ao abandono, o que restou de mim resistiu

alguém reparou em mim
deu-me uma nova vida
afinal, ainda não tinha morrido


(por que será que matamos tanta gente boa antes do tempo?)

um outro olhar...(8)










"o direito à (in)diferença..."

quem seremos nós?
e quantos estaremos aqui a fazer amor?
seremos mulheres ou homens?
seremos dois, três ou quatro?

mas, que interessa isso se estamos bem?

todos dizem que temos o direito à indiferença
a nós que só queremos
apenas
ter o direito à indiferença

um outro olhar...(7)













“cabeça de areia...”

eu tenho a minha cabeça cheia de areia

e não tento disfarçar nem esconder.

a minha cabeça é de areia... ponto final

tenho que saber viver com esta realidade

assim aqui estou, quietinha, apenas para ser vista

será pouco?... será muito?

pelo menos, tento não fazer asneiras... e não prejudico ninguém

a diferença que existe entre mim e tanta, tanta gente… é precisamente essa

é que eu sei que a minha cabeça está cheia de areia

e não disfarço nem escondo a minha cabeça de areia

um outro olhar...(6)












“estou triste…”

estou triste, sem saber o que fazer, nem para onde ir
estou triste, apenas isso

umas vezes gosto de mim e adoro o que faço
outras, nem por isso… e fico assim, triste
cabeça baixa, olhos no chão, querendo apenas desaparecer
ficar sozinho… calado… isolado do mundo que faz barulho demais

nestes momentos, apetece-me parar o tempo, desligar o botão e hibernar
meter-me numa campânula de vidro à prova de tudo
ou, se calhar, à prova de nada
por que o tempo não pára, o barulho lá fora é cada vez mais intenso
e não consigo ficar a ver tudo a acontecer

que fazer então?

respirar fundo, levantar a cabeça, olhar para o sol ou para o mar
e fazer como a natureza faz todos os dias
cada dia é um novo dia
poderá ser o primeiro ou o último mas isso não interessa
interessa sim é que é único e que devemos vivê-lo como a natureza faz

como se fosse o primeiro
ou como se fosse o último

um outro olhar...(5)













“quero lá saber…”

mil coisas para fazer, mas estou aqui a encher folhas de papel
tanto compromisso para cumprir, mas estou aqui a juntar pedaços de natureza

quero lá saber
lá fora não tenho tempo para nada
mas quando estou a juntar coisas e palavras, o tempo parece que pára
e, de repente, tenho tempo para tudo

quero lá saber
lá fora chamam por mim, mas eu estou aqui com as coisas e as palavras
não me pedem nada, mas têm-me todo
com todo o tempo que não dou aos outros

quero lá saber
aos que gritam e chamam por mim, só me apetece dizer-lhes -
parem de não ter tempo para usar o tempo

quanto a mim
quero lá saber

um outro olhar...(4)













“tou fu...”

sô pescador e tenh’um barc’à vela
todos dias à pesca vou
n’um quero saber dos perigos
conheço o mar melhor qu’a mim próprio

certo dia apareceu-m’ uma sereia
era tão linda qu’ enlouqueci
atirei-m’ à água e agarrei-a bem
n’ um era uma sereia, mas sim um tubarão
pensou qu’ er’ um polvo e comeu-m’ os braços
subi para o barco e fugi
apareceu-m’ uma rocha e ali encalhei
fiquei fu... mesmo muito fu

mas, afinal a culpa não foi minha
o escultor era nabo e cortou-m’ os braços
o barco n’um equilibrava e pô-lo numa pedra
tou fu... mesmo, mesmo... muito fu

um outro olhar...(3)









“…?...”

de repente acordei e vi-me aqui, em cima de um pedaço de madeira
ainda há pouco, pedaços de mim vagueavam pelo mar
foram dar a uma praia, estavam dispersos e nada fazia sentido

mas, de repente, acordei, olhei para mim e gostei

afinal, quem serei eu?
- uma bailarina?
- um modelo?
- ou serei, apenas, um sonho erótico do pinóquio?

não tenho memória, por isso não sei quem sou nem para onde vou
como é triste não ter memória

que faço eu aqui no planeta terra?
que obra vou deixar?

e como serei lembrada quando partir?

1.12.08

um outro olhar...(2)

“no meio do mar...”

no meio do mar sinto-me o dono do mundo
sonho, grito, falo com as estrelas e com o sol
faço amor com as sereias e brinco com os peixes

no meio do mar, eu sou autêntico
pois consigo ser, simplesmente, eu
e não tenho medo de nada
nem das correntes, das ondas ou do maior peixe que existe

como poderia ter medo no meio do mar?
não há guerras, fome, nem crianças maltratadas
não há mentiras, nem ódios e vingança é palavra que não existe

é tão bom estar no meio do mar
sozinho, solto e disperso
sentindo-me o dono do mundo
do meu mundo…

um outro olhar...(1)

"imperfeitas e desordenadas... mas juntas...”

não faço métricas, simplesmente porque não sei fazer métricas
e se quando escrevo, naturalmente, não saem métricas
então é porque as métricas não têm nada a ver com o que eu sinto
ligar ar com mar, amor com dor... até que é fácil

será?

mas não é isso que eu quero dizer(por isso os meus textos são tão desordenados)
nem é isso que eu quero fazer(daí fazer construções tão imperfeitas)
que importam as assimetrias e as imperfeições?
o importante são as palavras e as coisas que estavam soltas e dispersas
e agora estão juntas... imperfeitas e desordenadas... mas juntas


(não será também o mundo, sobretudo ele, tão imperfeito e desordenado?)

O início...

Numas férias, há bastante tempo, comecei por fazer pequenas construções (esculturas??) com "pedaços da natureza" que se cruzavam comigo (madeira, pedras, conchas, troncos... pedaços da natureza trazidos pelo mar ou encontrados numa qualquer mata). Certo dia, olhando para cada uma dessas construções (esculturas??), comecei a escrever pequenos textos (poesia??)... e assim nasceu este projecto com pedaços de natureza e palavras que fui juntando.
Este é o texto de abertura...

“um outro olhar...”

palavras e coisas que estavam soltas... dispersas
todas elas lindas... mas todas elas sós
tristemente sós…
à espera de um outro olhar
começaram a juntar-se
ganharam uma nova vida
e tudo começou a fazer mais sentido
as palavras... as coisas... nós... todos nós
fazemos mais sentido quando estamos juntos
depois de estarmos sós... soltos... e dispersos